"Aprendi que conversas sinceras não existem – existem as confissões por escrito."
Não existe. Nada que saia da minha boca parece real. Parece que eu estou sempre interpretando um personagem que ainda não foi bem desenvolvido, porque ele ainda não teve tempo de se completar e talvez nunca se complete. Ainda bem. O ser humano foi feito para ser mutável o tempo inteiro, porque está inserido em um mundo que muda o tempo inteiro. Nunca vou ser capaz de me declarar pra alguém pessoalmente. Quando eu falo, parece que as palavras são fantasmas saindo da minha boca e me sufocam por completo. Sempre tenho vontade de chorar. Toda vez que penso em dizer que amo ou que fiquei triste ou que a pessoa estragou minha vida ou qualquer coisa desse tipo, eu choro. E odeio. Odeio que me vejam chorando porque percebem tudo que eu ando escondendo de todo mundo todos esses anos. Só quem me lê consegue entender a raiz de cada pensamento que se torna sentimento em mim. Enquanto escrevo, sou capaz de contar umas coisas que não conto nem pra mim debaixo do chuveiro ou enrolada num edredom.
Quando eu escrevo, elevo meu sentimento à quinta potência e não me importo de parecer exagerada. Quando eu ouço minha voz confessando meus segredos, tenho um medo absurdo. Tenho medo que elas se percam, talvez. O que está escrito pode ser lido, relido e interpretado. O que foi dito, não. O que foi dito é uma sentença de morte que não tem como voltar atrás.
Minhas confissões estão todas aqui, por mais que eu mesma não consiga interpretá-las. Por mais que eu sufoque um turbilhão de sentimentos que vagam por mim sem rumo e com um futuro predestinado. Penso que vai chegar um dia em que vai ter tanta coisa pra ser esclarecida comigo mesma que não vou conseguir colocar nem em palavras escritas. Vou ter que transformar tudo em cor.
"Sometimes there's so much beauty in the world, I feel like I can't take it, and my heart is just going to cave in"
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
O homem que engoliu meu coração
Você
me olhou como quem está com muita sede e
toma um gole de água e eu tive vontade de recuar porque ninguém nunca tinha me
olhado assim, com o olhar de quem engole as entranhas e os pensamentos. Você me
olhou como se estivesse recriando o mundo e eu tive vontade de ser seu mundo por um milésimo de segundo. Você me ofereceu cachaça e eu fiz cara feia
porque sou fraca, não aguentei. Não aguentei te olhar atravessando a Mendes Sá
com pressa e parando porque me viu. Pela primeira vez me senti menina de novo e
não consegui fingir nada diante dos seus olhos que me decifravam e me puxavam
pra mais perto. Pela primeira vez eu entendi a metáfora do Bentinho, quando ele
falou que a Capitu tinha olhos de ressaca. Daí você disse que dá próxima vez ia
comprar cerveja e eu pensei que da próxima vez você podia fazer uma malinha e
ir morar comigo no Havaí.
Você
é daquele tipo de pessoa efêmera, quase impossível de tocar. Quando eu acho que
você tá perto, você já tá longe. Quando eu acho isso, você é aquilo. É impossível
acompanhar seus passos rápidos e sua mente enlouquecidamente mutável, intangível.
Eu falo que você parece um vampiro e você ri fingindo que não entendeu o
que eu quis dizer, mas você entende o tamanho das coisas e eu não preciso ficar
me explicando. Você entende a dimensão de qualquer frase que eu diga e faz questão de mostrar que nada pode ser mais doido do que a sua cabeça. Você é mentiroso também, do tipo que fala que vai, mas
não vai. Do tipo que se atrasa, mas faz valer cada minuto do tempo perdido. É difícil
acompanhar seus pensamentos enquanto que você vai riscando e escrevendo em cima
da vida, criando cenas das situações reais.
Tenho
vontade de amarrar seus pensamentos pra eu conseguir acompanha-los e ver se eu
consigo entrar nos seus sonhos, mas eles vão embora como balões de gás Hélio e
me fazem enlouquecer. Você se perde no meio das suas próprias confusões e me
coloca no meio de todas elas. Uma vez me disse que eu era o amor da sua vida,
mas depois mudou de ideia. Você quer engolir o mundo inteiro pra ver se ele
cabe dentro de você, mas ele não cabe. Então você vai engolindo as pessoas na sua
vida, colocando elas em caixinhas até elas transbordarem e você não saber mais
o que fazer. Você consegue ser louco nas entrelinhas dessa loucura burocrática
de quem sabe pra onde vai, mas faz questão de se perder. Faz questão de me
perder junto. Faz questão de perder tudo por uma noite fora do mundo. E pra você
não importa onde isso vai dar, só importa a beleza das coisas e as confusões e
as intensidades e os goles de cachaça e essa vontade de ver tudo como se fosse
novo. Você engoliu meu coração e mudou o rumo da historia. Você virou meu
segredo inconsolável, guardado pra mais tarde, guardado pra sempre.
sábado, 28 de setembro de 2013
Vinagre
Você tem cheiro de vinagre, ela falou. Ele tinha acabado de chegar da primeira manifestação contra o aumento das passagens de ônibus. Já tinha cheirado um pouco de gás lacrimogênio, o que deixou seus olhos um pouco irritados, mas ela gostava da ideia de ele ter ficado emocionado ao vê-la de novo. Mal sabiam eles que aquele primeiro grande ato se transformaria em uma maré de protestos gigantes nas cidades que, na verdade, nunca tinham dormido. Conversaram sobre polícia, política e e filmes, enquanto tomavam uma cerveja. Aliás, ele tomava cachaça. Ela era menina demais pra tomar algo tão quente naquela situação que já fazia seu coração acelerar. Enquanto ela olhava pro lado, pensando em tudo que ele havia acabado de falar, ele analisava seus peitos dentro do vestido branco, depois subia para o pescoço imaginando o que faria com ele no resto da noite. Ela notou, mas fingiu que não viu. Gostava desse ar canalha inteligente que ele tinha. Ela queria destruir todas as certezas dele e ele queria construir algo dentro dela. Um sentimento que não iria morrer com um sopro ou uma viagem longa. Misturaram-se entre vinagre, cerveja, cachaça e saliva naquela noite fora do mundo. Ela se apoiava pelada na janela enquanto fumava um cigarro, embora ela nunca fumasse, e ele a observava, criando cenas na cabeça. Eram dois mundos diferentes dentro de um quarto só. Então os dois criaram um universo.
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
Espectros e aspectos... A paixão em muitas visões
Texto especial do André Dias.
"Ta vendo aquela garota ali? Todos os caras querem ficar com ela. Todos passam e não conseguem desprender os olhos, e suas mentes formulam as mais tórridas taras naquele corpo sinuosamente delicado e tentador. Ela atrai porque espalha cores, música, sorriso, vida, oferecendo toda energia que nunca encontraremos em um comprimido milagroso.
Difícil explicar. O sol brilha onde ela está. Acho até que só brilha para ela. Quando se move o tempo pára, o vento sussurra. As nuvens se beijam, o ar fica mais leve. Cara, vou lhe dizer uma coisa, queria muito ter a voz dela me acordando por uma única manhã. Que o bom dia dela fosse meu café, e que deitada em mim, me esquentasse de forma suave e imperceptível a ponto de eu achar chinfrim todo lençol de seda comparado àquela pele.
Ela é foda. Sim, ela é toda toda. Ouvi dizer que não dá mole para qualquer um, e os poucos gatos pingados que atravessaram seu deserto acabaram se queimando, não seguraram o tranco. Ela é desafio e prêmio, super desejada pela raridade do feito que é fazê-la feliz e o prazer de ser feliz ao seu lado. Seus mares são agitados e tensos, mas àqueles que encontram seu porto há águas claras, sombra, alívio, gozo.
Ela destrói demônios. Ela não precisa de anjos protetores. Ela se faz paraíso. Segura, decidida, destemida, à frente, certas vezes canalha. Tipo de garota que não se faz de rogada para encenar cara de choro e beicinho ligeiramente sorrateiros. Caetano só soube da malícia de toda mulher depois de ver de perto a dor e a delícia que ela é. Só pode, não é possível! Ninguém nega nada a ela, falta coragem. Qualquer homem feito se enfraquece, tornando-se um menino indefeso diante de sua personalidade intimidadoramente escorregadia.
Eu preciso ser diferente. Tenho que ser. Eu vou dizer “não” pra tudo. Tudo bem, vou dizer um “não” após nove “sins”, porque acho que dez “sins” seria moral demais, viraria bagunça, e o homem precisa demonstrar firmeza. Deixá-la ligar o dia inteiro, ignorar, e só à noite quando estiver em meus braços, inversamente, ela poderá se sentir a mais desejada. Rogarei baixinho ao seu ouvido no escuro do quarto todos os meus desejos loucos, rogarei fervorosamente sem colocá-la num altar, rogarei sem fazer dela uma santa intocável, deixarei isso para seus fiéis incautos.
Meu Deus, sou mesmo um idiota. Aqui fantasiando através da fantasia. Ela é sonho. Parece um tanto obsessiva a imagem dessa menina dançando como constelações dentro do universo oco da minha cabeça. Tenho que dar uma volta e espairecer, andar um pouco, arejar. Vai ver é isso. De fato, a acho linda, gostosa, doce, perfeita e inteligente, mas isso não quer necessariamente dizer que eu esteja apaixonado por uma menina, mulher apaixonante."
Dé Dias
"Ta vendo aquela garota ali? Todos os caras querem ficar com ela. Todos passam e não conseguem desprender os olhos, e suas mentes formulam as mais tórridas taras naquele corpo sinuosamente delicado e tentador. Ela atrai porque espalha cores, música, sorriso, vida, oferecendo toda energia que nunca encontraremos em um comprimido milagroso.
Difícil explicar. O sol brilha onde ela está. Acho até que só brilha para ela. Quando se move o tempo pára, o vento sussurra. As nuvens se beijam, o ar fica mais leve. Cara, vou lhe dizer uma coisa, queria muito ter a voz dela me acordando por uma única manhã. Que o bom dia dela fosse meu café, e que deitada em mim, me esquentasse de forma suave e imperceptível a ponto de eu achar chinfrim todo lençol de seda comparado àquela pele.
Ela é foda. Sim, ela é toda toda. Ouvi dizer que não dá mole para qualquer um, e os poucos gatos pingados que atravessaram seu deserto acabaram se queimando, não seguraram o tranco. Ela é desafio e prêmio, super desejada pela raridade do feito que é fazê-la feliz e o prazer de ser feliz ao seu lado. Seus mares são agitados e tensos, mas àqueles que encontram seu porto há águas claras, sombra, alívio, gozo.
Ela destrói demônios. Ela não precisa de anjos protetores. Ela se faz paraíso. Segura, decidida, destemida, à frente, certas vezes canalha. Tipo de garota que não se faz de rogada para encenar cara de choro e beicinho ligeiramente sorrateiros. Caetano só soube da malícia de toda mulher depois de ver de perto a dor e a delícia que ela é. Só pode, não é possível! Ninguém nega nada a ela, falta coragem. Qualquer homem feito se enfraquece, tornando-se um menino indefeso diante de sua personalidade intimidadoramente escorregadia.
Eu preciso ser diferente. Tenho que ser. Eu vou dizer “não” pra tudo. Tudo bem, vou dizer um “não” após nove “sins”, porque acho que dez “sins” seria moral demais, viraria bagunça, e o homem precisa demonstrar firmeza. Deixá-la ligar o dia inteiro, ignorar, e só à noite quando estiver em meus braços, inversamente, ela poderá se sentir a mais desejada. Rogarei baixinho ao seu ouvido no escuro do quarto todos os meus desejos loucos, rogarei fervorosamente sem colocá-la num altar, rogarei sem fazer dela uma santa intocável, deixarei isso para seus fiéis incautos.
Meu Deus, sou mesmo um idiota. Aqui fantasiando através da fantasia. Ela é sonho. Parece um tanto obsessiva a imagem dessa menina dançando como constelações dentro do universo oco da minha cabeça. Tenho que dar uma volta e espairecer, andar um pouco, arejar. Vai ver é isso. De fato, a acho linda, gostosa, doce, perfeita e inteligente, mas isso não quer necessariamente dizer que eu esteja apaixonado por uma menina, mulher apaixonante."
Dé Dias
segunda-feira, 5 de agosto de 2013
O amor acabou
No dia que o amor acabou eu não tive tempo de arrumar a cama, nem de decidir se eu queria pintar minhas unhas de azul ou vermelho. Não tive tempo de olhar se meu cabelo estava no lugar e nem de tomar o café que eu tomo todos os dias. O dia acabou e eu percebi que pela primeira vez eu tinha me esquecido de lembrar de você. Olhei pro lado e você não tava mais aqui. Olhei pra dentro de mim e tentei te encontrar. Nada. Olhei embaixo da cama, atrás da cortina e nada de você aparecer e fazer meu coração apertar. Então comecei a chorar desesperadamente porque você tinha saído da minha cabeça. Eu sempre chorei porque queria te esquecer, mas hoje eu chorei porque eu te esqueci. O amor finalmente tinha morrido em mim.
Ouvi
wonderwall, esperando alguma resposta espontânea de meu corpo, mas não aconteceu
nada. Não chorei desesperadamente, como eu faço sempre, cantando de um jeito
brega e adolescente ‘maybe you’re gonna be the one that saves me, and after all
you are my wonderwall.’ Você não era mais minha wonderwall e nem poderia me
salvar de nada. Você era só alguém que tinha ficado no passado e eu me senti
completamente sozinha no mundo de novo.
Eu sempre
achei que eu ia sentir um alivio enorme quando você fosse embora, mas agora eu
to morrendo de medo do que a sua ausência vai fazer comigo. Você era sempre o
cara que eu largaria todo mundo pra estar. Por mais que eu tenha me apaixonado
por outras pessoas, você era sempre quem eu esperava no final de todos os meus
casos.
Você era
sempre a parte magica da minha vida. Qualquer coisa relacionada a você era
sempre meio surreal e diferente de tudo. Mas agora você foi embora e eu nunca
mais vou sentir isso. Eu queria te ver uma vez a cada dez anos e sentir
mais uma vez que o mundo é mágico e que de fato o amor vale a pena. Hoje eu não
senti nada disso e entrei em desespero. Nenhuma musica lembrou você, por mais
que eu estivesse forçando a barra pra sentir aquela saudade inversa. Eu lembro
que eu sempre repetia que queria te apagar da minha memória, como naquele filme
‘ Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças’. Hoje te apagaram da minha memória
e eu sinto saudade de sentir saudades de você. Por mais que você tenha ido embora você vai ser sempre meu brilho eterno, como daquelas estrelas que morrem, mas a
luz continua viajando no espaço. Você vai ser sempre a faísca do amor que resta
em mim.
Eu to
torcendo pra te encontrar por acaso. Torcendo pra eu te olhar e sentir de novo
todas aquelas coisas malucas que eu sinto quando você aparece. Torcendo pra eu
poder contar mais uma vez tudo que eu sinto, mas que eu nunca soube explicar
muito bem. Porque algumas coisas não precisam de explicação. Elas são o que são
e pronto. Não precisa dar nome, nem querer desqualificar um sentimento só por
ele não ser nobre o suficiente ou só porque ele não teve tempo de amadurecer e
ser chamado de amor. Só porque tá na moda não ser muito romântico e aí vivem
colocando coisas nas nossas cabeças falando que não podemos gostar de ninguém de
um jeito louco e sem explicação porque isso faz a gente sofrer mais. E todo
mundo sabe que no fundo, não existe conselho, porque ninguém entende nada de
amor. Querem colocar regras naquilo que nunca precisou de regras, que sempre
foi livre pra penetrar no coração e mudar a vida de quem quer que seja. Queria
que todo esse sentimento voltasse a transbordar em mim ao ponto de eu querer rasgar tudo.
Hoje eu entrei em
desespero porque descobri que, sem você, eu não estou preparada pra amar. Descobri
que você era a minha certeza de a gente pode amar e desamar e amar mais de um
de uma vez e desconstruir e construir do nada. Mas agora eu não tenho mais certezas e to morrendo de medo de não ter mais ninguém pra inventar.O que
que vai ser de mim agora que eu estou
completamente livre pra me apaixonar eternamente de novo?
sexta-feira, 2 de agosto de 2013
Enlouqueci, me disseram
Hoje, quando eu cheguei em casa,
rasguei tudo. Quebrei meu espelho, desarrumei a cama. Revirei tudo. Entrei em
descontrole e me pendurei na janela. Metade pra fora, metade pra dentro.
Chorei. Baguncei meu cabelo como se tivesse encontrado uma borboleta preta
dentro, igual ao André. Pensei que tivesse enlouquecido ontem, que nem ele. Eu
quebrei tudo. Quebrei tudo porque eu queria que você saísse de mim. Há um ano
você mora em mim, me enlouquece. Hoje eu olhei pro lado e achei que todo mundo
era você. Eu queria que você fosse todos eles. Eu sempre te vejo em tudo...
Enlouqueci. Falaram que podiam me
internar. Coitada, melhor deixar ela esfriar a cabeça. Quis chorar, mas fiquei
com medo de não parar mais. Não senti tristeza, nada disso. Só quebrei tudo
porque eu precisava fazer alguma coisa pra te tirar de mim. Foi involuntário,
como se eu quisesse cessar uma dor ou um pensamento incontrolável. Eu só queria
acabar com o amor. Enlouqueceu, coitadinha. E eu estava tão sã, sabia de tudo.
Não era delírio, não era descontrole. Era só uma forma de expulsar esse amor
todo que eu sinto, mas que não cabe em mim e eu não posso te contar. Eu prometo
que se um dia eu puder te falar desse meu amor, eu nunca mais vou olhar pra
ninguém, por mais que eu goste de relacionamentos livres. Eu não quero mais
ninguém. Há um tempo eu não quero mais ninguém porque eu sempre te espero no
final de todos os meus casos. Quando eu descubro que não são você eu volto pra
casa e me rasgo inteira. Escrevo um texto e tento explicar o que todos acham
que é loucura e eu chamo de amor. Queria gritar por uma hora seguida pra minha
falta de ar cobrir o vazio do mundo enquanto você não está por perto.
Eu quebrei tudo. Cheguei da festa.
Fumaça na cabeça e o amor se transbordando por todos os meus poros. Pressão
demais pro meu corpo. Não ouvi vozes, não tive vontade de morrer. Só quis
acabar com o amor, por um momento qualquer. Queria que você me deixasse em paz.
Há tempos que eu enlouqueço, me falaram. Queria te arrancar de mim como se
arranca uma erva daninha, arrancando pela raiz. Tenho medo de que quando eu te
arrancar de mim, eu me arranque um pouco também. Sangrando a carne, puxando a
pele. Eu tenho medo. Eu nunca imaginaria que você cresceria em mim assim. Eu
achava que você talvez nem brotasse direito, como um pé de feijão que eu
plantei quanto eu tinha 8 anos,mas logo morreu. Mas você cresceu em mim de um
jeito inesperado e me fez abrir todas as minhas portas e as janelas e a luz que
entrou me cegou o suficiente para eu não conseguir abrir a porta pra mais
ninguém. Você ocupou todos os espaços em mim e agora eu me sinto sufocadamente
confortável. Eu quebrei a janela. Queria crescer que nem você. Minha janela
tava me sufocando. Precisava gritar.
Ficaram morrendo de medo de mim.
Enlouqueceu, coitadinha. Morar longe da família não deve ser fácil. Não deve. O
amor que eu sinto me sufoca ao ponto de eu nunca conseguir explicar que é amor,
não invenção, não idealização. Essas borboletas pretas aparecem no meu cabelo
de tempos em tempos e eu preciso rasgar tudo. Rasguei as roupas, o lençol
branco que cobria o colchão velho. Eu gosto do barulho de tecido rasgando.
Finjo que sou eu, me abrindo ao meio. E ai eu grito, porque algo dentro de mim
queima e eu me sinto viva. Enlouqueci. Enlouqueci de amor. Sou tão frágil que
se encostar eu quebro. Vão falar de novo que eu enlouqueci, mas tudo isso é pra
dizer que você sou eu e que estamos conectados por algo que eu mesma inventei. Te
vejo de todas as formas e cores e tenho vontade de te rasgar inteiro. Rasgar
nós dois. Enlouquecer. Queriam me internar, mas eu tentei explicar que amor não
é doença. Não tem cura. Minhas crises funcionam como uma fuga de mim mesma.
Tento me encontrar nos restos do meu quarto. No que restou de mim. Você mudou
tudo e dane-se. Vou continuar enlouquecendo, vou continuar amando e querendo
matar o amor. É só porque você foi o único ate hoje que mereceu todo esse amor
que transborda em mim, por tudo. Você me merece porque quando eu te olho eu
entendo tudo por um segundo e sou puxada pra dentro de você, me afogando. Você
me merece porque eu me encontrei no momento exato que eu te vi. Transbordei de
amor e quebrei tudo. Enlouqueci, me disseram.
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